O Caso Zuccarelli

O Caso Zuccarelli

 

1. Introdução

No dia 19/04/1991, por volta das 21h40, Antônio José Pirozzi Zuccarelli, juntamente com sua esposa, em seu quarto, posicionado no décimo oitavo andar de um prédio na região da Chácara Inglesa, São Bernardo do Campo – SP, capturou um estranho objeto em vídeo.
Na ocasião o cinegrafista conseguiu com muita argúcia filmar a evolução e a descrição de trajetória feita pelo objeto até que este desaparecesse de sua linha de visão.

O caso foi divulgado e analisado perfunctoriamente pela equipe do site “TV Infa” (www.tvinfa.com.br e www.infa.com.br), capitaneados pelo eminente ufólogo Claudeir Covo. Mais recentemente, em 16/02/2008 o referido site divulgou uma entrevista com o então cinegrafista Sr. Zuccarelli.

Essa entrevista e a gravação completa foram, conjuntamente, a mola propulsora da realização da presente análise. Ademais, frise-se que longe de tentar esgotar de qualquer modo a questão, a análise simplesmente pretende – a grosso modo e com parcos recursos,  transcorridos cerca de 17 anos do ocorrido -, lançar algumas prováveis hipóteses que explicariam e quem sabe auxiliariam no intento de identificar o objeto filmado.

Sem mais delongas, o vídeo/entrevista pode ser visto por meio dos links abaixo:

(1) http://www.tvinfa.com.br/arquivos.html (clicando no vídeo “021 – 16.02.2008 – Caso Zucarelli”);

ou por meio do youtube,

(2) Youtube/Caso Zuccarelli
 

2. Da análise perfunctória realizada pela equipe “INFA”

A divulgação do caso pela “TV Infa” é acompanhada do seguinte texto, aqui transcrito com a devida menção:

A primeira hipótese avaliada foi a de um avião, que foi descartada, pois os aviões tem iluminação dianteira totalmente diferente da lateral, e no vídeo vemos o objeto inicialmente de frente e depois lateralmente, sendo que o brilho continua igual o tempo todo. O dirigível da Goodyear também foi descartado, pois chegou ao Brasil só em 1998. Várias outras hipóteses foram avaliadas e todas elas foram descartadas. Ficou registrado como sendo um Objeto Voador Não Identificado.

Não foi possível encontrar uma análise mais aprofundada do que essa, daí a razão de qualificá-la, com a devida vênia, de perfunctória. Ademais, o parágrafo descarta duas prováveis origens do objeto, quais sejam: Aviões em geral e o dirigível publicitário da marca “Goodyear”.
A primeira hipótese foi descartada pois o objeto realiza mudança de trajetória sem contudo demonstrar alteração de luminosidade,  – o que presumir-se-ía incompatível com o farol de um avião, por exemplo. A segunda hipótese foi descartada pois os dirigíveis publicitários da marca “Goodyear” realmente só foram introduzidos no Brasil nos idos de 1998.

Enfim, por hora compete-nos deter melhor na hipótese do dirigível publicitário da “Goodyear” para só então começar uma análise um pouco mais fulcrada. Com isso também colhemos mais alguns dados.

2.1. Hipótese: O objeto avistado seria o dirigível da Goodyear?

 Dirig�vel Goodyear

Uma coisa é fato: dirigíveis são fontes constantes de erros de interpretação com relação a objetos aéreos não identificados.
E não há nada de estranho nisso, pois os dirigíveis publicitários atuais, equipados com luzes estroboscópicas e de navegação noturna, por vezes produzem espetáculos luminosos muito incomuns.
Cada vez mais sofisticados (um deles carrega até mesmo um imenso painel luminoso), os dirigíveis publicitários são capazes de enganar o incauto observador de boa-fé e fornecer elementos visuais o bastante para os observadores de má-fé perpetrarem suas fraudes.

Os vídeos abaixo são exemplos impressionantes do que é capaz de fazer um dirigível a noite:

(1) “OVNI”/Dirigível da Sanyo sobrevoando Nova York:

(2) “OVNI”/Dirigível A-150 Ventura da Goodyear com painel luminoso ligado, sobrevoando Santo André-SP:

 E com a transcrição da notícia abaixo solucionamos boa parte do problema:

 

 Figura já incorporada à paisagem de São Paulo, o dirigível da Goodyear deixou de voar no último dia do ano – ao menos com as cores da fabricante de pneus norte-americana. O contrato entre ela e a empresa Space Airships, dona do aparelho, se encerrou no dia 31 e não foi renovado.

A Goodyear utilizava esse tipo de mídia aérea no Brasil desde 1998. Há três anos, o aparelho anterior foi substituído pelo atual, chamado de Ventura, que é maior (50 m de comprimento contra 36 m do anterior) e mais moderno, contando, inclusive, com um painel eletrônico nas laterais.

O blimp, como é chamado esse tipo de dirigível, ficou famoso, sobretudo, nas coberturas esportivas da TV Globo, que mantinha uma parceria com a Goodyear.

A proprietária já negocia a cessão do dirigível com outras empresas – o modelo menor, por exemplo, já serviu a companhias como a Ambev em outros países da América Latina.

Coincidência ou não, o Ventura está enquadrado no Projeto Cidade Limpa, que limita o uso de outdoor na cidade de São Paulo, mesmo que ele esteja no ar, literalmente.

 (notícia publicada em 05/01/2007 no site Airway Online – http://airway.uol.com.br/site/noticia/not1103_75.asp)

 

No Brasil os dirigíveis são representados pela Space Airships, representante do Lightship Group, em cuja página estão os dados técnicos das aeronaves:
http://www.spaceairships.com.br e http://www.lightships.com

O dirigível que está (ou estava, pois segundo notícias foi levado de volta para a matriz nos EUA) no Brasil atualmente é o A-150 Ventura, fabricado pela American Blimp Corporation. Tem 50,3 metros de comprimento e contém 4250m³ de hélio. Como comparação, os gigantescos Graf Zeppelin e Hindenburg tinham respectivamente 236m e 245m de comprimento, contendo 105000 e 205000 m³ de hidrogênio. Eram portanto cinco vezes mais compridos que os atuais “blimps”, e tinham um deslocamento 40 vezes maior. Mesmo assim, o Ventura está longe de ser pequeno, sendo mais comprido que um Boeing 757. Mas sua parte habitável resume-se à gôndola.

Além do Ventura, que chegou em 2002 para ficar por 5 anos, o Brasil já foi visitado pelo A-60 “Spirit of the Americas”, também fretado pela Goodyear, que percorreu a América do Sul entre 1998 e 2001. Outro dirigível que passou por aqui foi o Pax Rio, também um A-60. O A-60 é um modelo menor, com 40m de comprimento e contém 2000m³ de hélio.

Parece certo portanto o fato de que esses dirigíveis só passaram a operar no Brasil a partir de 1998.
Assim, se o vídeo foi realmente tomado em 19/04/1991, a hipótese do dirigível da Goodyear pode ser refutada prima facie. Aliás, não só a hipótese do dirigível Goodyear poderia ser descartada, como eventualmente a de qualquer outro, uma vez que, em pesquisa breve, não é possível encontrar nenhum registro de “blimps” em operação no Brasil antes do ano de 1998. Debate-se ainda outras questões menos importantes para o momento, tais como o custo operacional elevado e a necessidade de licença administrativa para operar estes aparelhos.

Por fim, a hipótese do dirigível, ou hipótese Hindenburg, parece-nos, num primeiro momento em razão da data do ocorrido, de difícil implementação.

Nesse interim ficam as seguintes questões:

  1. A data do avistamento realmente foi em 19/04/1991?
  2. Por qual razão se considerou como 19/04/1991 se o Sr. Zuccarelli afirma expressamente na entrevista que não se lembra da data?
  3. A velocidade do objeto é compatível com a de um dirigível?

 As duas primeiras questões me parecem mais pro forma, para meros efeitos de esclarecimento e confirmação, e a terceira de difícil constatação ou mesmo irrelevante diante do que virá a seguir.

Assim sendo, diante dos dados coletados já há margem de segurança o suficiente para refutar a hipótese “Hindenburg”.

 

3. Da pesquisa

 

 

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